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Teresa de Sousa

O percurso «atípico» de uma geração

  • Nome: Teresa de Sousa
  • Idade à data da entrevista: 54 anos
  • Local de nascimento: Lisboa
  • Habilitações académicas: Licenciatura incompleta (ISCEF), Pós-Graduação
  • Órgão de comunicação social em que trabalha: Público
  • Órgãos de comunicação social onde já trabalhou: Jornal Novo - RDP - Expresso
  • Data em que se iniciou na profissão: 1976
  • Estatuto profissional: Redactora principal
  • Profissão dos pais:
  • Profissão do pai: Quadro técnico superior
  • Profissão da mãe: Quadro técnico superior

  • Entrevistada a 4 de Agosto de 2006

A Guerra do Líbano atingira o apogeu na segunda quinzena de Julho de 2006, com a invasão de território libanês por forças israelitas, obrigando a um adiamento da entrevista. Foram dias de intensa actividade para Teresa de Sousa, uma das mais conceituadas especialistas em questões europeias do jornalismo nacional. A situação já não era tão grave na manhã de a 4 de Agosto, quando a entrevista teve lugar, na redacção do Público. Concentrada, gratificada por vezes até ao entusiasmo, viajou até à década, que pareceu durar um século, entre 1968 e 1976, ano em que ingressou na profissão de jornalista, no Jornal Novo: recuou à crise académica do final dos anos 60, quando iniciou a oposição à ditadura, ao exílio em Paris, à militância em partidos maoistas, à escrita em jornais partidários, à efervescência ideológica do pós-25 de Abril e aos primórdios do jornalismo livre em Portugal.

A conversa prolongou-se por várias horas e chegou ao jornalismo de hoje, muito mais institucionalizado e profissionalizado, incalculavelmente enriquecido (no seu caso pessoal, pelo menos) pela Internet, mas também a braços com questões muito complexas e sensíveis.

Ao longo destes temas, o mesmo empenho mental e verbal, o mesmo impulso para reflectir e para transmitir o raciocínio, visível numa voz aberta e expressiva, no olhar atento à nossa atenção, à nossa recepção da mensagem, a mesma disponibilidade para ouvir e voltar atrás se necessário.

No conjunto da entrevista encontramos uma identidade profissional fundada na oposição - e na forma como a supera ou racionaliza - entre duas situações diametralmente opostas e inscritas cronologicamente: primeiro, a entrada na profissão em pleno "PREC", uma entrada casual, impulsiva, precedida por vários anos de militância na extrema-esquerda maoista, num contexto social e pessoal difícil e de algum modo extraordinário (tinha três filhos, viveu exilada em Paris); depois, a actualidade, também extraordinária mas por razões completamente diferentes: pelo seu estatuto de opinion maker e jornalista de referência em temas europeus, que já lhe mereceu diversas condecorações, com destaque para a Ordem de Mérito do Estado Francês atribuída pelo Presidente Chirac e a Ordem do Infante Dom Henrique, da Presidência Portuguesa.

Se são inumeráveis os contrastes entre os comportamentos sociais e culturais de 1974-76 e os de hoje («tudo era feito por paixão», lembra), esses contrastes reflectem-se com particular intensidade no meio jornalístico. Depois do 25 de Abril, o jornalismo português teve que se inventar, não apenas reinventar. Antes não era livre, dificilmente era jornalismo, havia censura, não havia formação superior na área, como em tantas outras.

No caso de Teresa de Sousa - e provavelmente no de muitos outros jornalistas da sua geração -, não só a entrada para a profissão coincidiu com este período, como a forma como se entregou ao tempo revolucionário lhe criou referências éticas, competências de escrita e de comunicação e, enfim, endurance suficientes para as décadas de jornalismo que se seguiriam. «Instinto» e «paixão» são palavras-chave quando fala desse período. Por exemplo: «no dia em que pisei a redacção do Jornal Novo, nunca tinha lido na minha vida um livro a dizer o que é o jornalismo, como é que se faz uma notícia, foi tudo por instinto.»

A travessia entre estes dois tempos e pólos radicalmente opostos sobressai no récit de vie de Teresa de Sousa. E uma palavra frequente no seu discurso condensa o sentido desta travessia: a palavra "normal", associada à ideia de normalização.

Entre os anos 70 e hoje, «a vida nos jornais normalizou e eu normalizei» e hoje os jornalistas «são cidadãos como os outros, normais», isto «num país normal como é já Portugal, europeu.» A "normalização" não é apresentada como um ideal ou um fim moral. Entendemo-la num duplo sentido:

Por um lado, como explicação naturalista para múltiplos processos concomitantes e correlacionados ao longo da sua vida: a desradicalização/democratização do seu pensamento, a institucionalização do jornalismo em Portugal, a europeização dos modos e padrões de vida num país que começou por conhecer arcaico e subdesenvolvido.

Por outro lado, o recurso ao adjectivo, ao mesmo tempo que lhe proporciona um distanciamento face ao passado revolucionário, com todas as experiências sociais, políticas e profissionais que o caracterizaram, revela-nos a preocupação de afirmar esse distanciamento. Um passado muito distante da «normalidade» das sociedades europeias de então e tanto mais indesejável, note-se, quanto a palavra antónima - «anormal» - é pejorativa.

Ou seja, um percurso profissional que várias vezes apelida de «atípico» (adjectivo que também se adequa aos percursos da profissão em Portugal e do país), teria a sua redenção na ancoragem a práticas profissionais, formas de vida, ideologias e regimes "normais".

Por exemplo, a dada altura da entrevista, Teresa de Sousa antecipa-se à introdução de um novo tema para reafirmar este sentido do seu percurso:

«Deixe-me só dizer-lhe uma coisa: depois desta entrada fortuita na profissão, em um ano ou dois eu tornei-me uma pessoa profissional, portanto, primeiro comecei a evoluir mentalmente para outras latitudes ideológicas, fazendo o corte com o radicalismo e com o maoismo, tornei-me uma pessoa, como a gente diria hoje na gíria, normal, olhando para a vida normalmente.»

Esta necessidade de afirmação da distância tem o seu reverso da medalha. Ela mostra, eventualmente, como esse passado persiste enquanto ameaça, pelo menos enquanto ameaça às certezas. Afinal, a vida profissional de Teresa de Sousa não é assim tão normal, no sentido de não ser comum. E será Portugal o país "normal" e "europeu" com que sonhámos? A pertinência da pergunta persiste na História, mesmo depois de rupturas tão profundas como as dos últimos 40 anos.

Pedro Sousa