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Simone Carvalho

Jornalismo, Território de emancipação e sedução interpessoal

  • Nome: Simone Costa Carvalho
  • Idade à data da entrevista: 25 anos
  • Local de nascimento: Torres Vedras
  • Habilitações académicas: Licenciatura em Ciências da Comunicação
  • Órgão de comunicação social em que trabalha: Elite - Negócios & Lifestyle
  • Órgãos de comunicação social onde já trabalhou: TEMPO (contrato); Lusa e Público (estágios)
  • Data em que se iniciou na profissão: 2003
  • Estatuto profissional: Chefe de Redacção
  • Profissão dos pais: Pai: Pequeno agricultor ou assalariado agrícola; Mãe: Doméstica

  • Entrevistada em 10 de Julho de 2006

Com apenas 25 anos, Simone Carvalho é chefe de redacção da revista Elite. Fala entre pausas, por vezes longas, medindo as ideias, como que não querendo, ainda uma vez, fazer má figura em mais este (parente afastado de) teste. A facilidade de expressão aguça a lucidez e a capacidade de leitura da realidade intra e extra-profissional. Por outro lado, o discurso verbal é acompanhado de um discurso não-verbal em que lemos satisfação, não apenas relativa ao exercício do jornalismo, mas também ao facto de ele constituir uma espécie de matriz orientadora da sua vida pessoal, um campo de emancipação à sua mercê. Percebemos estar perante uma profissional de grande potencial.

O seu percurso até aqui recorda-nos uma expressão em desuso: ela comeu o pão que o diabo amassou, desde os tempos em que foi uma aluna brilhante e resiliente da Escola Secundária do Cadaval, onde morava no seio de uma família muito humilde, até à conclusão do curso de Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa.

A par da crítica persistente aos problemas que atravessam os jornalistas, Simone Carvalho pressupõe que o modelo a seguir para lhes escapar é o das profissões liberais (médicos e advogados são as a que cita), às quais associa a liberdade face às tutelas e a coesão interna que faltam na sua profissão.

A jovem jornalista forma uma representação da profissão coerente com a moral individualista e a sociedade competitiva em que vivemos. Não ingressou nela para «mudar o mundo», mas acredita que «um jornalista que seja competente pode salvar o dia duma pessoa», se conseguir escrever sobre assuntos e de forma que agradem a um determinado leitor, deixando-o mais animado. É portanto uma relação individualizada, um assunto entre duas pessoas, nas suas palavras «um jogo de prazer que tem que haver nos dois lados.» Ser bom jornalista implica saber jogar este jogo, além de obrigar a usar «o tal rigor e todos os outros imperativos deontológicos».

Este «tal» convoca a quase omnipresença da problemática da deontologia no seio do jornalismo mas, antes de mais, no âmbito do curso universitário que concluiu há escassos dois anos. Com ou sem a passagem das palavras aos actos, a profissão não é concebível separadamente dos respectivos compromissos deontológicos, para qualquer dos milhares de jovens acabados de sair, como ela, de um curso superior na área. Pragmaticamente, Simone Carvalho não deixa de relativizar esta relação, situando-a no contexto empresarial e laboral em que ocorre.

Sob vários aspectos, esta jovem é uma referência para as novas gerações de jornalistas, que saem da universidade sob uma chuva de dificuldades. Um exemplo de como é possível abraçar a profissão, com as suas características tão duras e exigentes quanto apaixonantes e torná-la num meio de emancipação pessoal. Um exemplo de como, para o conseguir, é preciso muitas vezes atravessar o deserto, no seu caso vários desertos, o da precariedade, que condena abertamente, o das tentativas de pressão, o dos meses sem salário ou dos anos de estudo sem ir a um só concerto musical; e de como, ainda para o conseguir, é preciso manter a confiança na qualidade do próprio trabalho.

Simone Carvalho é uma jornalista do seu tempo, que assimilou as características do seu tempo: na importância que dá à imagem, não como substituto do conteúdo, mas como meio de o promover; na perspectiva individualista de entender o exercício da profissão; na distância em relação à política e na desconfiança face à ideologia, em favor da confiança em líderes políticos.

 

Pedro Sousa