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Rebecca Abecassis

A resistente

  • Nome: Rebecca Abecassis
  • Idade: 34
  • Sexo: Feminino
  • Local de nascimento: Lisboa
  • Habilitações académicas:
    Master of Arts (City University, Londres), Pós-Graduação em Jornalismo (Sorbonne Nouvelle, Paris), Licenciatura em Sciences Politiques et Sociales (Ecole des Hautes Etudes Politiques et Sociales, Paris)
  • Órgão em que trabalha: SIC Notícias, SIC
  • Órgãos onde já trabalhou: CNN (freelancer), Independente (freelancer),RTP, SIC
  • Data em que se iniciou na profissão: 1996 (Londres), 1997 (carteira profissional)
  • Estatuto profissional:Editora de Programas Internacionais
  • Profissão dos pais: Pai: Administrador de empresa; Mãe: Editora
  • Ordenação de programas de televisão: 1. Debates e entrevistas, 2. Noticiários, 3. Filmes, 4. Documentários, 5. Reality shows, 6. Telenovelas
  • Posição ideológica: na juventude: Centro; hoje em dia: Centro-direita


Encontramo-nos num café entre São Bento e o Príncipe Real. Simpático e discreto, como a minha interlocutora, situa-se numa praça abrigada por um tecto de árvores rumorosas, que a protege da Lisboa mal encarada, presa às filas de trânsito e à travessia do deserto das rotinas. Também própria da manhã de Julho, esta serenidade determina a postura de Rebecca Abecassis, primeiro perante a situação da entrevista, depois ao longo do testemunho de introspecção e reflexão acerca dos meandros do jornalismo. Disponível desde o primeiro contacto, tinha sugerido o local depois de concluirmos que seria difícil uma conversa sossegada na redacção da SIC Notícias, onde é coordenadora de programas internacionais.

O seu discurso é marcado pela afirmação de uma identidade cultural estrangeirada que, cedo se percebe, se lhe impõe como matriz para as relações profissionais e sociais. «Eu não tenho nenhuma formação portuguesa» - é o aviso com que, antes de começarmos a gravação, apela à minha prudência, no tom humilde que imprime à voz.

Tremendamente presente ao longo da entrevista, esta identidade, definida por oposição à cultura portuguesa e por afinidade às culturas em que assentou a sua educação - a nórdica e protestante, da mãe, a francesa e a britânica, sem esquecer a origem judaica do pai -, fá-la também tropeçar aqui e ali no processo de afirmação profissional. O estilo simples, directo, que faz os Nórdicos prescindir da nossa necessidade de ostentação simbólica, respeitar os outros sem o nosso provinciano sentido da hierarquia (mais prosaicamente, a deferência temerosa perante os que estão acima e o desprezo pelos que estão abaixo), não são propriamente recursos políticos nas instituições portuguesas.

Então, reconhece que não sabe «vender» a sua imagem e «obviamente, acabo por perder com isso». Noutra passagem, lembra que a dada altura a direcção da SIC a chamou à realidade: «Eu tinha que ser mais simpática com as pessoas». Considerou que havia ali uma confusão entre simpatia e cultura profissional: «expliquei que eu não ia tomar café três ou quatro vezes por dia, nem para o exterior fumar cigarros, porque isso não estava na minha cultura. Porque eu falava com toda a gente, era simpática com toda a gente à minha maneira».

Mas estes e outros escolhos que o «choque cultural» lhe dispõe no caminho são apenas parêntesis numa ainda curta carreira de já grande sucesso.

Chegada a Portugal aos 26 anos, depois de um percurso académico em Paris e Londres, que incluiu uma licenciatura em Estudos Políticos, uma pós-graduação em Jornalismo e um Master of Arts em Jornalismo Internacional, com uma origem sócio-económica privilegiada, um gosto genuíno pelo exercício da profissão, um sólido sentido ético da mesma e das relações humanas, uma disciplina nórdica, bastaram-lhe seis anos para chegar ao cargo de chefia na SIC Notícias, que hoje mantém.

Por outro lado, a persistência do «choque cultural», da oposição entre «cá» e «lá», o questionamento metódico do seu verdadeiro lugar face a essa oposição, que tem como resposta mais frequente o «lá», parece impor-lhe o desconforto da pessoa para quem cada opção implica uma ruptura.

Alguns exemplos… Mesmo definindo-se e redefinindo-se por oposição à cultura portuguesa, parece em certas respostas, pausas e silêncios debater-se com o desejo de lhe pertencer por inteiro. E apesar de todos os defeitos que descobre na cultura organizacional portuguesa, reconhece que a qualidade de vida é melhor em Lisboa, pela qualidade das relações humanas ou pelo preço dos serviços, do que em Paris ou Londres.

Tendo sempre votado no centro-direita (filha da Dinamarquesa Snu Abecassis, o seu padrasto foi Francisco Sá Carneiro e ela viveu, embora muito jovem, a intensidade da luta política no tempo da Aliança Democrática), não hesita em confessar: «o meu coração está à esquerda», conquista que a esquerda ficará a dever ao conhecimento profundo de uma multiplicidade de culturas e realidades humanas trágicas que o seu percurso académico e profissional e a sua curiosidade íntima lhe destinaram.

A mesma experiência afasta-a do circo mediático das «pessoas famosas». «Não faço ideia quem é que são as pessoas famosas nem quem é que não são... não estou minimamente interessada, zero.»

Não é pessoal a solidão que a socialização estrangeirada lhe traz, mas social e relativa ao meio jornalístico. Embora se conforme com este isolamento, ele não é meigo, como veremos, para a sua vida profissional.