Pesquisar no site

 

Pedro Rosa Mendes

Pedro Rosa Mendes

As redacções estão imersas na lógica dos conteúdos. Não há espaço para a seriedade jornalística.

  • Nome: Pedro Rosa Mendes [nome profissional]
  • Idade: Nasceu a 4 de Agosto de 1968, em Cernache do Bonjardim, sertã.
  • Habilitações Académicas: Frequência do curso de Direito – completou o Bacharelato na Universidade de Coimbra.
  • Órgão de Comunicação Social onde trabalha: Jornalista Free Lance e Delegado em Timor-leste pela Agência Lusa (desde dez. 2006).
  • Órgãos de Comunicação Social onde já trabalhou: Rádio Universidade de Coimbra (1987); Jornal de Coimbra (1988); Público (1989-2000) [foi um dos 21 estagiários recrutados para o diário por concurso].
    Em 1996, foi correspondente do Público em Luanda; colaborador permanente e colunista na revista Visão entre 2003-2004; Free Lance no semanário Expresso, Antena 1 (repórter Sérvia, até Março de 2006) e jornal El País (colaboração).
  • Outras informações: colaboração frequente em revistas literárias: Tabacaria, Ícon e Egoísta (lisboa); el país semanal (madrid); Jornal liberation (Paris); lettre international de literatura (berlim); Grand Street (Nova Iorque) e Terra Negra (Bruxelas).
    Foi distinguido com vários prémios de reportagem: Prémio Nacional de Reportagem do Clube Português de Imprensa (1998); prémio Ami-Jornalismo contra a Indiferença (1999) e Prémio Nacional de Reportagem Bordalo-Imprensa (2000).
    Estreou-se como escritor no livro “O melhor café” da autoria do fotógrafo Alfredo Cunha (Contexto, 1996).
  • Em 1999, publicou o seu primeiro livro, Baía dos Tigres (Dom Quixote), premiado pelo Pen Clube de Romance e Prémio Fernão Mendes Pinto pela Câmara Municipal de Cascais. O livro está traduzido em mais de vinte línguas e foi colocado pela crítica literária alemã entre os melhores romances traduzidos em 2001.
  • Em 2001 e 2004, publica os álbuns de reportagem Ilhas de Fogo e Madre Cacau – Timor, em co-autoria com o ilustrador Alain Corbel (Edição ACEP). Repete esta parceria em Lenin Oil, publicado em 2006 (Dom Quixote).
  • Em 2003, publica o romance fotográfico Atlântico, em co-autoria com João Francisco Vilhena (Temas & Debates). É co-Autor de Topografias da Vinha e do Vinho (Assírio e Alvim, 2002); Borders e One Step Beyond.
  • Entre 2002-2003, foi escritor residente do Serviço Alemão de Intercâmbio Académico/DAAD, em Berlim. Integrou ainda o projecto internacional de fotografia Borders and Beyond/Au delà des Frontières, da Pro-Helvetica/Foundation Suisse pour la Culture (Zurique, 2002).
  • Desde 2003, desenvolve um projecto em África com o reporter fotográfico Wolf Bowig com quem publica, em 2006, o livro Schwartz.Licht.
  • Data em que iniciou a profissão de jornalista: 1987
  • Profissão dos pais: Ambos professores do ensino primário (Básico); Mãe: falecida quando PRM tinha três anos. Madrasta: professora primária.
  • PRM é divorciado e tem duas filhas, de 9 e 6 anos.
  • A mais velha, Inês, nasceu quando PRM acabava de regressar de África. Numa passagem enternecedora do seu primeiro e premiado livro Baía dos Tigres, fala da experiência mágica ao olhar a foto da sua primeira ecografia e do alento que este momento lhe deu para prosseguir, e terminar, a sua longa travessia pelo continente africano. Esta viagem era “um sonho” do jornalista e foi realizado, por terra, “De Angola à Contracosta”, em 1996.
  • PRM prepara um novo livro, novamente sobre Timor-Leste e está a chegar ao fim de um romance “ambicioso” sobre a Guiné-Bissau.
  • Em 2009, sairá em Portugal a obra que publicou em 2006 na Alemanha, sobre o conflito de guerra na África Ocidental, um livro de pendor estritamente jornalístico.
Esta entrevista foi realizada em duas tardes e em plena época de mudanças para Pedro Rosa Mendes (PRM): naquele momento, o jornalista estava à beira de mais uma transformação radical de vida, mas que ainda se aproximava em cronómetro incerto . Partiria, em breve, para Timor-Leste. Pela primeira vez, iria exercer a função de jornalista-delegado para a Agência Lusa, o que para si constituía o regresso ao jornalismo do quotidano.
O prazo estabelecido para deixar a sua casa (3 de Dezembro), situada num condomínio em Algés que a senhoria lhe alugara a um preço “muito abaixo” do normal por considerar de “confiança alguém que tinha a cara nos jornais e nos livros”, começava a apertar. Caixotes ocupavam já todo o corredor, embora ainda estivessem meio empacotados. E as estantes, essas mantinham-se intactas. Continuavam cheias de livros, quadros e fotografias, como se lhes fosse destinado serem a última coisa a sair dali.

O momento de indefinição que PRM vivia — muito por causa de uma data definitiva de partida que lhe poderia ser comunicada “a qualquer momento”— deixavam-no particularmente inquieto. O jornalista tinha estado, nessa mesma manhã, em mais uma reunião na Agência Lusa e regressara, mais uma vez, sem a sua resposta: “Quando posso partir, afinal?!”, exasperava junto das chefias. Entretanto, tratava à pressa de terminar as obras “mínimas” do novo espaço onde ficariam guardados os seus pertences por dois anos e começava verdadeiramente a irritar-se com as idas e vindas à redacção, que o impediam de programar a vida.

Datas:
I Parte da entrevista: 9 de Novembro de 2006, à tarde, até as duas filhas, Violeta, de seis anos, e Inês, de nove, chegarem da escola e requererem a atenção do pai. Quando a mais pequenina se fartou de desenhar, pintar e depois oferecer as castanhas que a mantiveram por uns tempos entretida, a entrevista ficou (legitimamente) suspensa, mas com data de regresso e um livro (precioso) debaixo do meu braço: One Step Beyond, de Lukas Einsele (2005) é uma obra que representa mais um dos projectos “atípicos” em que o jornalista se envolve. Reúne várias histórias passadas entre territórios minados do Afeganistão, Bósnia, Cambodja e Angola. PRM escreve um texto sobre a tenção que um jornalista sente em busca da procura da escrita que melhor descreva uma realidade violenta, aquela que seja capaz de ajudar o repórter a desprender-se de “todo o lixo que fica no [seu] olhar”, de forma a melhor servir o conhecimento público (An elephant’s footstep, texto 94). Devolverei o livro, que alia a fotografia de autor à escrita e ao desenho, quando PRM regressar de Timor-Leste, tal como ficou prometido.


II Parte: 27 de Novembro de 2006, à tarde, e exactamente nas mesmas circunstâncias da primeira entrevista, com a diferença de PRM estar, desta vez, visivelmente mais cansado. O jornalista não tinha dormido “praticamente nada” naquela noite de forma a conseguir cumprir o deadline de mais um artigo. As tarefas de mudança de casa continuavam atrasadas. Acabara de retirar do correio uma revista holandesa onde a reportagem de PRM sobre a pesca do bacalhau e as gentes da Terra Nova eram destaque (capa e páginas centrais). Esse momento deu-lhe fôlego para prosseguir o dia.

Local da entrevista: Na sala da casa de Pedro Rosa Mendes, junto a uma janela enorme de vista privilegiada para o Rio Tejo , acompanhada por chá de ervas. Para PRM, foi importante o local que escolheu para esta entrevista. Queria que ficasse registado o momento da sua despedida desta casa “e deste ambiente que não é o meu”.

Apesar de todo o contexto de incerteza que, de facto, rodeava PRM em Novembro de 2006, o jornalista foi generoso para com uma estranha. Permitiu que o Perfil Sociológico entrasse no seu reduto familiar e concedeu-lhe um detalhado testemunho sobre a sua vida: “Nunca tinha dado uma entrevista tão longa a ninguém” . A frase fez recair sobre a entrevistadora o peso da responsabilidade imensa de bem retratar este jornalista de excepção.

PRM partiria, em Janeiro de 2007, para Dili, um sítio “onde se demora três dias a chegar”. Contou o que aqui fica escrito “da única maneira que sabe que é contando tudo e muito claramente” .

Mais tarde, encontrei uma frase de PRM no sítio em linha da revista Lettre Ulysses  onde é júri do único prémio anual para as melhores reportagens literárias do mundo. Estava em destaque, naquele momento: "If you want to report on an issue that is so deep, the only honest way to report it is to have a commitment in time". PRM sabe do que fala. Testemunhei esse seu tempo, longo e dedicado, mesmo que facilmente se pudesse ter refugiado na falta que, no momento, ele lhe fazia. Na verdade, repetiu nesta entrevista o que tem feito, ao longo de toda a sua carreira enquanto jornalista: honra as pessoas aproximando-se delas.

Sara Meireles