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Luís Rodrigues

Dá-me uma notíciazinha, por amor de Deus

Nome: Luís Rodrigues
Idade à data da entrevista: 68 anos.
Local de nascimento: Barreiro
Habilitações académicas: Licenciatura em Economia e Gestão; Licenciatura em Sociologia
Órgão de comunicação social em que trabalha: Povo Livre
Órgãos de comunicação social onde já trabalhou: Jornal do Barreiro, Notícia (Angola) Província de Angola (Angola), Jornal do Congo (Angola), Star (Joanesburgo, correspondente) Newsweek (correspondente), BBC (correspondente)
Data em que se iniciou na profissão: 1962
Estatuto profissional: Chefe de Redacção
Profissão dos pais: Pai: Empresário Mãe: Licenciada em Germânicas

Entrevistado em 24 de Outubro de 2006

«Eh pá!, precisamos de ti, o jornal Povo Livre do PSD está em baixa...» Foi assim que, no início do mandato de Durão Barroso como Primeiro-Ministro, Luís Rodrigues foi convidado para chefiar o órgão oficial do PSD - «não digo chefiar a redacção porque o jornal é todo feito por mim», acrescenta com a sua voz sonante e exclamativa, no enorme salão dos Paços do Concelho, onde nos recebe e onde desempenha o cargo de assessor para a Comunicação Estratégica do Presidente da Câmara de Lisboa, Carmona Rodrigues. Estamos em Outubro de 2006.

Aquele «está em baixa» lançado pelos colegas do partido representava uma cartada forte. Há mais de quarenta anos, enquanto redactor do Província de Angola, fora convidado para recuperar, como director, um periódico em fase de decadência, o Jornal do Congo, do distrito do Uige. Em dois anos e meio superou as expectativas: «Tive sorte, o jornal não somente reviveu como reganhou público, ganhou público, ganhou audiência, ganhou outra vez influência a nível de Angola...»

Não se ficam por aqui os seus créditos em matéria de recuperação de projectos em baixa. Nos anos 80, quando trabalhava como director de marketing num laboratório farmacêutico, recorda que o fez passar de «52º para 21º lugar» num ranking do sector.

Os anos de 1962 até 1976 foram de intensíssima actividade jornalística: cobriu numerosas situações de guerra, viu trabalhos seus ganharem prémios, outros valerem-lhe chamadas à PIDE local e multas por «fintas à censura», tornou-se correspondente em Angola da BBC, da Newsweek e de outros media estrangeiros, colaboração que no caso da BBC se prolongaria por mais dois anos após o 25 de Abril.

Jornalisticamente falando, foi o seu período dourado. Um não acabar de reportagens, crónicas, a ascensão a chefe de redacção e mais tarde a director-adjunto do Província de Angola, onde escrevia muitos dos editoriais. Eram tempos generosos para os colonos: «em Angola, era um jornalista rico, dum jornal rico...» Este desafogo levou-o a viajar por todo o mundo, ele que no final dos anos 50 já por várias vezes viajara pela Europa, partindo do seu Barreiro natal na companhia dos primos.

É um percurso jornalístico sui generis e truncado em plena juventude. Depois da carreira fulgurante em África, regressado a Portugal, encontrou as portas da imprensa fechadas, com excepção da BBC, de que continuava a ser correspondente (tendo mesmo voltado a partir para Angola a fim de cobrir a guerra civil) e algumas participações avulsas no Expresso. «Em 76, deixei o jornalismo durante muitos anos.» Durante mais de vinte anos. O regresso «já em fase de pré-reforma» com o Povo Livre e o regresso às origens com uma crónica por «brincadeira» no Jornal do Barreiro, são um parco consolo para alguém com a sua cultura, que inclui duas licenciaturas, a primeira das quais (em Medicina) inacabada.

Esta cultura acumulada não o inibe de empregar uma linguagem simples, em que as expressões populares e o calão coabitam com referências eruditas, numa harmonia fortemente sonora, um tom entusiástico e quase juvenil que nunca tenta condicionar e com o qual nos traz alguns dos muitos lugares, situações e pessoas que o marcaram.

A licenciatura em Gestão de Empresas, tirada «aos poucos» na Universidade Witwatersrand, na África do Sul, seria importante no seu trajecto profissional em Portugal, pois viria a trabalhar, a partir do final dos anos 70, no sector do marketing. Ex-colega de liceu de Sá Carneiro, amigo de Pinto Balsemão, ingressou no PSD logo em 1974, a convite deste último e primeiro militante do partido. Hoje acumula a feitura do Povo Livre com o cargo de assessor na Câmara de Lisboa.

O Povo Livre é como que a soma possível da sua década áurea de jornalismo e de juventude, com as décadas de militância no PSD. Uma soma que peca por defeito. Em casa, a par do prazer da vida familiar, atira-se ao prazer dos livros: sociologia, economia, antropologia, policiais, romances, jornais, revistas. «Tudo... mesmo se não houver mais nada para ler, leio um selo do correio.»

Por tudo isto, aos 68 anos, o regresso ao jornalismo não partidário é, simplesmente, um sonho: «Ah... Isso... isso é que eu gostava, claro. (...) Bem que gostava! Bem que gostava...»

 

Pedro Sousa