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José Carlos de Vasconcelos

As novas tecnologias são óptimas, mas não mudam o essencial do jornalismo

  • Nome: José Carlos Torres Matos de Vasconcelos
  • Idade: 66 anos (n. 10.09.1940, em Freamunde, concelho de Paços de Ferreira), três filhos, quatro netos
  • Habilitações académicas: licenciatura em Direito, pela Universidade de Coimbra
  • Órgão de comunicação em que trabalha: director do Jornal de Letras; coordenador editorial da Visão
  • Órgãos de comunicação onde já trabalhou: Colaborações juvenis na imprensa regional; chefe de redacção, enquanto estudante, do semanário Via Latina e da revista Vértice; Diário de Lisboa; Diário de Notícias (director-adjunto); RTP (director-adjunto); co-fundador de O Jornal, onde desempenhou funções de director, e do JL, além de director editorial do grupo, Projornal (O Jornal, Sete, Jornal da Educação, História, Jornal de Letras, Correio Económico, Bisnau). Co-fundador e primeiro director editorial da Visão
  • Data em que se iniciou na profissão: 1966
  • Pais Pai, professor do ensino secundário
  • Ler mais: Entrevista feita em 24 de Novembro de 2006, na casa de Lisboa do entrevistado

Eu hei-de envelhecer assim,
Neste enredo de julgamentos e notícias,
Sem a mão estendida do meu filho pequeno?
«Eu hei-de envelhecer assim»,

José Carlos de Vasconcelos, in Repórter do Coração, com uma pintura de Graça Morais, Edições ASA, 2004, Porto

Livros. Livros e quadros. Há também os cavalos, dos mais variados feitios e origens artesanais. E fotografias, com o «compadre» Jorge Amado em evidência. Mas são os livros e os quadros que nos envolvem, mal a porta se abre e ele nos dá as boas-vindas.

Já no final da entrevista, perante a indisfarçada curiosidade do entrevistador, José Carlos de Vasconcelos (JCV) oferecer-me-á uma espécie de visita guiada pelos quadros e livros.

O primeiro – um foco de iluminação a mostrar a importância artística e afectiva que lhe atribui –, ofereceu-lho António Areal. Uma forma de lhe agradecer o patrocínio jurídico, num processo que agitou o meio artístico antes do 25 de Abril, quando um nutrido grupo de actores, actrizes, artistas plásticos de nome já então sonante se viram acusados de consumir droga.

Era o tempo (Marcelo Caetano) da campanha «Droga, Loucura, Morte». Enquanto advogado (como já percebemos pelos versos da epígrafe, e não tardaremos a ver, na entrevista, qualidade inseparável, nele, da de jornalista e também de poeta) JCV encarrega-se da defesa de cinco: Areal, José Rodrigues, João Perry, António Barahona da Fonseca, Eunice Muñoz.

Esta parede da sala de estar e o hall de entrada testemunham o reconhecimento dos réus do processo a quem os defendeu graciosa e vitoriosamente: além deste quadro, onde aparece de toga, pintado por Areal — hoje valiosíssimo, se acaso o quisesse vender —, há mais do que um desenho de José Rodrigues (o primeiro livro que ilustrou foi de JCV) e outro ainda de Bernardo Marques, oferta de Perry.

Pequeníssima amostra de uma quantidade apreciável de obras (muitas à espera ainda de moldura e até de mais parede) ligadas directa ou indirectamente à sua actividade jornalística e literária: Ramos-Rosa, Mário Dionísio, João Abel Manta, Rogério Ribeiro, Siza Vieira, Júlio Resende, Cipriano Dourado, Costa Pinheiro, Bual, Graça Morais, Júlio (como poeta Saúl Dias), António Quadros (como peta J. Grabato Dias), Francisco Relógio, uma colagem de José de Guimarães, até um pequeno óleo do poeta Carlos de Oliveira.

Nos livros, a atenção fica-nos numa quadra da dedicatória que Carlos Drummond de Andrade lhe escreveu, em 1981, na Obra Completa (Ed. Aguillar) que então lhe ofereceu. E na prateleira donde retira, com natural vaidade, os três primeiros livros da colecção Cancioneiro Vértice: Cuidar dos Vivos, de Fernando Assis Pacheco; Corpo de Esperança, dele próprio; e, bandeira de toda uma geração, não apenas coimbrã, A Praça da Canção, de Manuel Alegre. Espraiados pelas salas, pelo corredor, representam uma pequena parte do que, ao longo dos anos, foi acumulando (muitos milhares ofereceu-os já à sua terra natal, Freamunde, para formar uma biblioteca).

A literatura, pois, e o Direito, como marcas profundas de um homem que aos 13 anos já escrevia em jornais locais; aos 19 publicou o seu primeiro livro; aos 24 se licenciou em Direito; e, logo a seguir – a convite do mítico repórter da guerra civil de Espanha, Mário Neves – ingressou no jornalismo profissional, pela porta do Diário de Lisboa. E que, 40 anos passados, dirige o único periódico de língua portuguesa dedicado às Letras e às Artes, é coordenador editorial da Visão, de que foi um dos fundadores e primeiro director editorial, e continua a ser advogado, ainda que desde há anos muito pouco, exclusivamente «borlas», sobretudo «defendendo jornalistas».

O carácter polémico desta dualidade profissional (a que se juntou, nos anos 80, a de efémero político/deputado) ocupa uma parte da entrevista de quase três horas, a que se seguirá um almoço. A cuja mesa outros temas não hão-de surgir que não estejam ligados a jornais ou a jornalistas.

Carácter polémico é uma forma de escrever. Não que o entrevistador o não considere fulcral. Mas porque a prática profissional do entrevistado lhe confere um sentido concreto, afinal bem ao invés daquele que nos leva, comummente, a vê-lo como incompatível com o exercício da profissão: quase sempre o que JCV defende, na barra, é aquilo que faz a essência da profissão — a liberdade de informar e de ser informado — e que lhe ganhou o título de honra de advogado que durante muitos anos mais processos de liberdade de imprensa defendeu em Portugal.

Adelino Gomes