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João Paulo Guerrra

Gosto de ouvir as pessoas e de as dar a ouvir

  • Nome:  João Paulo Guerra Baptista Coelho Vieira
  • Data e local de nascimento: 16.04.1942, Lisboa. Casado, pai de quatro filhos: Paulo (40 anos), João (38), Manuel (21) e Francisco (9).
  • Habilitações Académicas: Frequência dos cursos de Medicina e História
  • Órgãos de comunicação em que trabalha: Diário Económico (redactor-principal) e RDP-Antena 1 (como colaborador)
  • Órgãos de comunicação onde já trabalhou: Rádio Renascença, Rádio Clube Português, suplemento A Mosca (Diário de Lisboa), Emissora Nacional, O Diário, Público, semanário O Jornal, TSF, entre outros. Repórter da série Século XX Português, da SIC.
  • Data em que se iniciou na profissão: 1962
  • Estatuto profissional: jornalista
  • Profissão da Mãe: jornalista, fundadora e chefe de redacção da revista Crónica Feminina e cronista na rádio.
  • Ver + http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Paulo_Guerra
  • Entrevista feita em 30.11.2006, num salão de chá do Largo do Carmo, em Lisboa
A questão é esta e precisa de ser colocada já à cabeça: o entrevistador vai evocar experiências e acontecimentos que partilhou com o entrevistado.
Tal como as outras a seu cargo, a «entrevista» com João Paulo Guerra não colocava o problema de uma qualquer «violência simbólica», resultante da interacção e correspondentes «distorções» inscritas na própria estrutura da relação que se estabelece entre inquiridor e inquirido (com «vantagem», à partida, para o primeiro) e que um encontro deste tipo normalmente engendra.
Antes representava um encontro entre triplamente «iguais»: iguais porque oficiais do mesmo ofício; iguais porque ocupando, na hierarquia da profissão, posições mais ou menos semelhantes, mais que não seja pela antiguidade, que nesta profissão é também um posto; iguais porque, conhecendo-se mas também respeitando-se há longos anos, esta proximidade não parecia susceptível de gerar ipso facto diálogos excessivamente marcados por cumplicidades desajustadas ao objectivo do trabalho.
A diferença deste particular encontro residia numa questão ética singular. Durante uma parte do período sobre o qual se iria inevitavelmente falar — 1966/7, nos Noticiários do RCP; 1970/3, nos programas Página 1 e Tempo ZIP, da Rádio Renascença; e medidas administrativas por acções praticadas em conjunto no âmbito destes dois programas — as biografias de inquiridor e inquirido mais do que cruzarem-se, entrelaçam-se e confundem-se, de algum modo.
Como actuar, neste caso?
Bourdieu conta, em La Misére du Monde, que uma boa parte dos inquéritos feitos em condições semelhantes levou a que tudo se dissesse salvo o que era necessário, o que determinou que acabasse no caixote do lixo da sua equipa.
Decidi enfrentar o risco. Confiante em que, assumida com naturalidade a parte comum deste passado, o encontro com um alter ego, para retomar Bourdieu, poderia, pelo contrário, ir, talvez, mais longe e mais fundo, na tentativa de compreender comportamentos e opções tomadas.
O facto de JPG ser, a par de Joaquim Furtado, dos poucos inquiridos com passado profissional na Rádio, para mais num serviço de noticiários que constituiu, durante muitos anos, a única verdadeira redacção radiofónica do país, explica, por outro lado, o espaço que reservei, na conversa, à memória da especificidade jornalística neste meio de comunicação, pouco estudada na literatura da especialidade, entre nós.
Reencontro de mais de duas horas com um companheiro de trabalho radiofónico,  numa casa de chá de que o entrevistado é fã. Na embocadura, quase, do local donde há 32 anos Salgueiro Maia, a quem João Paulo Guerra fez a última entrevista, em 1992, lançou por megafone o ultimato decisivo às forças da GNR que protegiam Marcelo Caetano.



Adelino Gomes