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João Marcelino

A independência económica é fundamental para que possamos resistir às pressões e aos poderes

  • Nome: João Marcelino
  • Idade: 50 anos (nasceu em 1959)
  • Sexo: masculino
  • Habilitações académicas: curso de Geologia incompleto
  • Órgão de comunicação social em que trabalha:Diário de Notícias (director)
  • Órgãos de comunicação social em que trabalhou: Record (jornalista e director), Sábado(director) e Correio da Manhã [director desde 2002 e à data da entrevista].
  • Data em que se iniciou na profissão: 1979
  • Estatuto profissional: director
  • Profissão dos pais: Pai: militar e Mãe: doméstica.
  • Local: Gabinete de João Marcelino, na redacção do Correio da Manhã, em Lisboa.
  • Data: 30.11.06.

Agendada, desmarcada (sempre por justificações profissionais) e reagendada ao longo de seis meses (num ano de Eleições Presidencias e de Mundial de Futebol), a entrevista concretiza-se no final da tarde de 30 de Novembro, véspera de sexta-feira feriado, no gabinete do então director do Correio da Manhã. A tarde vai chuvosa e o trânsito está caótico. A capital agita-se para o fim de semana prolongado, e da rua ouvem-se buzinas e as sirenes dos bombeiros que acodem às primeiras inundações.

A assistente de João Marcelino conduz a entrevistadora desde a entrada do piso até à porta do gabinete, separado da redacção por uma estrutura de alumínio branco, envidraçada até metade da parede. João Marcelino levanta-se, cumprimenta com cordialidade e volta a sentar-se à secretária de tampo de madeira polida. Do seu lado esquerdo, fica a impressora multifunções, ao centro, um monitor amplo. À direita, o telemóvel topo de gama - que parece funcionar como a sua agenda electrónica, em que vai mexendo, que atende e consulta ao longo da entrevista. No extremo da secretária, à direita, há três colunas de livros aparentemente novos, com cerca de meio metro. As paredes do gabinete estão forradas de armários e de prateleiras até metade da parede. Nas prateleiras, os porta-revistas guardam antigas edições da Sábado e suplementos do Correio da Manhã.

Vestido com uma camisola de lã de gola alta e calças de fazenda, ambas pretas, o director do Correio da Manhã é a imagem da sobriedade. Fala num tom muito contido, mas é sempre frontal e assertivo nas respostas; pragmático nas questões reflexivas. Responde a algumas perguntas à defesa; com um “não” retórico, mesmo quando a questão não implicava uma resposta directa. Introduz frequentemente “você” no meio das frases, tentando envolver a interlocutora na sua argumentação.

Durante a entrevista, atende três vezes o telemóvel e tem conversas mais descontraídas ou aparentemente com algum sentido estratégico, ao falar de uma terceira pessoa. Meia hora depois de ter começado a conversa, somos interrompidos pelo aviso para a reunião de fecho de edição. “Estou a dar uma entrevista”, diz João Marcelino. E a porta fecha-se sem demoras. Já quase no fim, um jornalista apresenta ao director um plano da primeira página do dia seguinte, impresso a cores. Na fotografia que acompanha a manchete, uma mulher esbraceja à porta de um tribunal. “Os outros têm isto?”, pergunta João Marcelino. “Não, é nosso”, responde o jornalista. “OK, está bom, pode seguir”.

Já com o gravador desligado, João Marcelino recosta-se ligeiramente na cadeira de pele preta e braços de madeira. Assume uma postura mais descontraída e conta alguns aspectos da sua vida pessoal. Nasceu em Lisboa, filho de pai militar e de mãe doméstica. Passou parte da infância e da adolescência em Angola, para onde partiu aos 4 anos; e em Moçambique, onde viveu dos 12 aos 15 anos.

«Era uma vida vivida sem tantos preconceitos e com muito mais liberdade. Lisboa era uma cidade muito pequenina – hoje ainda se sente muito isso, quanto mais naquela altura… Havia muito mais horas de sol, acordava-se mais cedo, trabalhava-se mais e deitávamo-nos mais tarde; vivia-se muito mais».

Recorda Moçambique como uma experiência enriquecedora. «Vivi em Nampula, conheci a Beira e Lourenço Marques. Havia ali gente com muita qualidade; tive muitos professores… havia uma elite cultural que era superior à de Lisboa, porque as pessoas lá viviam com muita liberdade, não tinham uma vida tão provinciana; havia muito mais espaço, mais horizontes… A satisfação das necessidades económicas e o próprio espaço abre os cérebros das pessoas. O “já ali” eram alguns quilómetros. De Nampula a Nankala, eram 400 quilómetros, íamos à praia e não tinha nada… Em Portugal, as pessoas são muito marcadas por um território pequeno e vêem muito as fronteiras…». No jornalismo dessa época, considera que o Notícias de Lourenço Marques e o Diário da Beira, «não deviam nada aos jornais do Continente».

João Marcelino, director do Correio da Manhã à data da entrevista (actualização), 50 anos, casado, sem filhos, nasceu em São Sebastião da Pedreira e vive no Parque das Nações, também em Lisboa.

Vanda Ferreira