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Edite Soeiro

O jornalista de hoje é mais culto do que eu era quando comecei .

  • Nome: Edite Castro Soeiro
  • N. 31.03.1934, em Luanda *
  • Um filho de uma relação de sete anos com outro jornalista, Acácio Barradas (“sem casamento, numa altura em que era preciso lata para o fazer”), três netos.
  • Habilitações académicas: antigo 5º ano do liceu (colégio das Doroteias, em Sá da Bandeira)
  • Órgão de comunicação: Revista Visão
  • Órgãos de comunicação onde já trabalhou: O Intrasigente (bi e mais tarde trissemanário, Benguela), revista Flama, revista Notícia (delegação em Lisboa), O Jornal
  • Data em que se iniciou na profissão: 1950 (com 16 anos)
  • * faleceu em Lisboa a 01.04.2007

Sai do elevador, amparada na bengala. Sorri. Prefere almoçar na cantina central da empresa, em vez de irmos para algum restaurante das imediações. Propõe que comecemos logo. Vê-se, no brilho dos intensos olhos azuis, que tem gosto/orgulho em contar por que é que continua, aos 72 anos e com oito anos de limitativo pós-operatório cancerígeno, a deslocar-se à Visão.

A história, de resto, fala por si.

Reformada depois de declarada com uma incapacidade de 85 por cento, mas avisada pelo médico que a segue regularmente de que deve continuar a respirar o ar da redacção que a mantém viva desde os 16 anos, pede para falar com um alto responsável do grupo. Comunica-lhe ao que vai. Diz que, por ela, gostava de continuar a trabalhar às sextas, segundas e terças-feiras.

A conversa seguiu. Até que, percebendo que o interlocutor não dava mostras de entender aquela fixação naqueles precisos dias, lhe explicou que aquelas eram as datas de cada fecho semanal. Ou seja: os dias em que sabia que encontraria, de certeza, trabalho para fazer.

Chegou o momento da pergunta inevitável:

E quanto é que quer receber por esses dias de trabalho?

Isso é consigo, respondeu.

A oferta da empresa foi bastante mais alta do que esperava. “Fiz bem em não ter indicado uma quantia. Nunca teria a ‘lata’ de pedir tanto”, diz-me agora.

Sei, pois, que não veio ao jornal de propósito para me dar a entrevista. E que não devo demorar demasiado tempo na conversa, porque quando ela acabar, ainda há-de restar-lhe algum tempo para dar à revista, em cujo Gabinete Editorial se integra.

“O meu espírito não está preparado para não fazer nada”, diz-me. Apesar da doença. Por causa da doença. “Há uma parte activa que me diz que tenho ainda que trabalhar. Isso mostra que eu estou ainda viva. Por isso mesmo é que, há meses, quando ganhei o prémio [Gazeta de Mérito, atribuído em 2006, pelo Clube dos Jornalistas, que a considerou “uma referência ética, cívica e profissional do jornalismo português”] dei aquelas entrevistas todas”.

Já numa sala de reuniões, no 2º andar do edifício onde a Impresa agrupa a Visão, o Expresso e uma infinidade de outros títulos, o grosso da conversa confirma-me a enorme, vital ligação de Edite Soeiro à profissão em que se iniciou há 56 anos. Num bissemanário de Benguela, O Intransigente, que, juntamente com o nome do respectivo director, Gastão Vinagre, mantém no trono da galeria das suas devoções.

E revela-me uma rara e entusiasmada disponibilidade (nela, que é o profissional de jornalismo há mais anos em actividade no país) pelas novas tecnologias. E uma abertura, nalguns casos admiração, pelas gerações vindas muito depois. Algo difícil de encontrar em muitos veteranos da profissão.

“Eu gosto mesmo de ser jornalista”

“Esta menina ainda um dia há-de trabalhar comigo no jornal”. O homem que assim fala da criança de quatro anos que tem ao colo chama-se Gastão Vinagre. A menina, Edite. A cena passa-se em Benguela, Angola

Edite nasceu em Luanda, mas vai seguindo, com a mãe e os irmãos, Helena, a mais velha, e Rui, o mais novo, o destino profissional do pai, que é funcionário da Fazenda e está colocado na “cidade das acácias rubras”.

Em 1950 — acabou a menina de fazer o 5º ano no Colégio das Doroteias, em Sá da Bandeira — o vaticínio cumpre-se. O Intransigente, jornal bissemanário de Gastão Vinagre — um republicano e maçon que publica, na tipografia de que é proprietário, um periódico “do reviralho” numa cidade tradicionalmente “do reviralho” — passa a contar com um quarto elemento na redacção.

Quase seis décadas depois, ainda a trabalhar apesar de já reformada, Edite Soeiro compreende a decisão familiar de a fazer interromper os estudos e pô-la a trabalhar aos 16 anos de idade: “Não sofri com isso. Os recursos financeiros que havia só chegavam para o rapaz [Rui, tirar o curso de engenharia em Lisboa]”.

Adelino Gomes