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Metodologias

O projecto «Perfil Sociológico do Jornalista Português» combina duas metodologias: análise quantitativa de dados caracterizadores do grupo profissional e entrevistas semi-directivas a jornalistas no activo, a jornalistas desempregados, a jornalistas estagiários e a jornalistas reformados.

1. Análise quantitativa

Os elementos recolhidos junto da Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas (actualizados a 31 de Dezembro de 2006) e do Sindicato dos Jornalistas (relativos a anos anteriores) permitiram a criação de uma base de dados sobre os jornalistas credenciados para exercer a profissão em órgãos de comunicação social de difusão nacional ou local/regional. Do respectivo tratamento estatístico, em SPSS, resultou o estudo sociográfico.

2. Entrevistas semi-directivas

Concebidas segundo um modelo aplicado em França por um grupo de sociólogos dirigido por Pierre Bourdieu e que deu origem ao livro intitulado La Misère du Monde, as entrevistas semi-directivas, das quais damos conta na III Parte do Relatório final, permitiram conhecer representações construídas pelos próprios jornalistas através de histórias de vida narradas na primeira pessoa: imagens guardadas da época em que começaram a sua actividade profissional; referências, crenças, opiniões, modelos de comportamento e aspirações. Permitiram, em suma, encontrar respostas para questões como: Qual a origem social dos jornalistas? Quais as estratégias de promoção social que traçam, num mercado particularmente saturado? Como visualizam a sua própria profissão? E o futuro desta? Como gerem as relações hierárquicas no interior da profissão? E as relações com os “colegas de ofício”? Quais os limites, ético – deontológicos, que defendem?

Atribuiu-se uma importância particular ao contexto físico em que, por escolha do entrevistado, decorreram as entrevistas (em casa do próprio, num espaço público, no local de trabalho, etc.), e optou-se por deixar falar livremente o entrevistado a partir de perguntas genéricas remetendo para aspectos mais individuais (da pessoa, do jornalista) ou mais contextuais (do grupo, do meio, da sociedade), mas respeitando, sempre, um guião. Cada entrevista foi acompanhada de dados sociográficos relativos ao entrevistado assim como de um texto introdutório da responsabilidade exclusiva do entrevistador em que este, assumindo a subjectividade do acto de entrevistar, transmite a sensação que lhe deixou a entrevista ou o próprio entrevistado.

2. 1. Perfis-tipo

A escolha dos entrevistados partiu da consulta da base de dados, de sugestões dos investigadores e de informações já recolhidas nos dois inquéritos anteriores. Obedeceu, por outro lado, a critérios de representatividade em função da seguinte grelha de perfis previamente construída:

  • Jornalista freelance
  • Jornalista desempregado de longa duração
  • Jornalista estagiário (que realizou estágios sucessivos)
  • Jornalista jovem
  • Jornalista reformado, com percurso profissional assinalável
  • Jornalista grande repórter, enviado especial, referência/modelo (pela carreira, com notoriedade no interior do grupo socioprofissional)
  • Jornalista celebridade (mediático, figura pública, notoriedade no exterior do grupo socioprofissional)
  • Jornalista formador de opinião
  • Jornalista pivot/apresentador/entrevistador
  • Jornalista professor (mobilidade na carreira ou acumulação)
  • Jornalista escritor/intelectual
  • Jornalista provedor dos leitores/jornalista particularmente empenhado em matérias de deontologia profissional
  • Jornalista que se reciclou noutras áreas ligadas à comunicação (publicidade, assessoria, relações públicas)
  • Jornalista “doutrinário” (que trabalha em meios de informação/comunicação explicitamente ligados a organizações políticas)
  • Jornalista de imprensa gratuita
  • Jornalista mulher (pioneira)
  • Jornalista em cargo de direcção (jovem ou com ascensão rápida)
  • Jornalista com experiência de direcção/cargos editoriais em vários meios/empresas (públicas ou privadas)
  • Jornalista com origem e experiência nas ex-colónias
  • Jornalista correspondente no estrangeiro
  • Jornalista de meio electrónico
  • Jornalistas especializado
    • Automóveis/automobilismo
    • Ciência
    • Cultura e espectáculos
    • Economia e negócios
    • Assuntos europeus
    • Revistas Femininas
    • Revistas Masculinas
  • Jornalista de imprensa confessional
  • Jornalista da imprensa local ou regional
  • Jornalistas por gerações
  • Antes de 1974 (censura - Estado Novo)
  • Pós-25 de Abril (representantes de correntes políticas, jornalistas militantes, trabalhadores de meios nacionalizados)
  • 1985/1986-2000 (contexto concorrencial comercial, capital privado na propriedade dos media)
  • Jornalistas por tipos de formação
  • Formação de nível básico ou secundário (de tarimba)
  • Formação superior (representante da primeira geração de jornalistas licenciados)
  • Doutorado
  • Auto-didacta (com origem em cooperativas de jornalistas)
  • Jornalista com destacada actividade reivindicativa (na profissão)
  • Jornalista com origem numa minoria étnica

Para equilibrar a amostra foram ainda seleccionados cinco jornalistas sem especial visibilidade pública, retirados aleatoriamente da lista de associados do Sindicato.

2. 2. Guião

O guião das entrevistas encontra-se reproduzido no ANEXO 1. No sentido de se conseguir alguma uniformização, na aplicação do referido guião; de se obterem respostas susceptíveis de leituras transversais sem, no entanto, afectar a espontaneidade dos entrevistados e de se explorar a capacidade dos entrevistadores também eles, na sua maioria, jornalistas de larga experiência, foram adoptadas as directivas seguintes que respeitam, aliás, as condições de rigor exigíveis nas ciências sociais:

  • A primeira versão do texto das entrevistas é da responsabilidade exclusiva dos respectivos entrevistadores que não serão obrigados a reproduzir exaustivamente os conteúdos registados.
  • Espera-se dos entrevistadores um texto sintético mas fluido. Que exprima o ambiente em que a conversa decorreu e, também, as singularidades do discurso do entrevistado, reflexo dos quadros de referência deste.
  • Assumida como «um trabalho de autor» a entrevista deve incluir discurso directo como instrumento de enfatização do «dito». Assim sendo, poderão existir abordagens mais analíticas, ou ensaísticas, a par de passagens mais ou menos prolongadas, em registo citação/pergunta-resposta.
  • Numa segunda fase, o texto será debatido no interior do grupo de investigação.
  • Numa terceira fase, o texto será facultado ao entrevistado que poderá sugerir alterações nas partes que o envolverem directa e explicitamente.
  • O texto final resultará, assim, de um acordo entre o entrevistado, o entrevistador e a equipa de investigação.
  • Verificando-se impossibilidade de se chegar ao acordo referido, a entrevista será anulada substituindo-se o entrevistado ou, se este assim o pretender, o próprio entrevistador.
  • Cabe ao coordenador do projecto efectuar a mediação e tomar a decisão apropriada a cada caso concreto.
  • Cada entrevista será precedida de uma apresentação do entrevistado e de uma «introdução» redigida livremente pelo entrevistador, não sujeita a aprovação do entrevistado nem a debate pela equipa de investigação.
  • Nessa «introdução», o entrevistador deve referir o local onde decorreu a entrevista e relatar eventuais argumentos invocados pelo entrevistado para justificar a escolha do local (se exigiu que fosse na redacção ou não, etc.). Deve fazer menção, sempre que tal se verifique, do uso de pseudónimo assim como da eventual necessidade do entrevistado solicitar a autorização das chefias para conceder a entrevista Deve descrever o ambiente em que decorreu a entrevista; como é que as perguntas foram acolhidas pelo entrevistado; que reacções demonstrou. Deve, em síntese, interessar-se pelo “não-dito”, assim como pelos traços do entrevistado (de personalidade ou de carreira) susceptíveis de melhor contextualizar a entrevista.
  • O guião deve ser interiorizado pelos investigadores, (não exibido) e assumido como ponto de partida para a condução das entrevistas.

2. 3. Aferição

De 8 a 10 de Maio de 2006, esteve em Lisboa o Prof. Rémy Rieffel, da Universidade de Paris II (Panthéon/Assas), para proferir uma conferência no Mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação, do Departamento de Sociologia do ISCTE. Tendo o Prof. Rémy Rieffel coordenado uma investigação análoga em França, cujos resultados vieram a ser publicados num livro intitulado Les Journalistes Français à l’aube de l’an 2000 - Profils et Parcours, julgou-se útil convidá-lo para duas reuniões de trabalho com a equipa de investigação. Tratava-se de, à luz da experiência francesa, testar os procedimentos seguidos aqui e comparar dois contextos profissionais com origens históricas, contornos sociológicos, políticos, culturais e económicos muito diferentes.

Rémy Rieffel passou em revista os pontos fortes e os pontos fracos da investigação que coordenou. Salientou o inconveniente de os investigadores franceses terem sido recrutados, apenas, em meio universitário. Resultado: a investigação foi mal recebida no interior da profissão que, pura e simplesmente, a ignorou. Rémy Rieffel sublinhou, como muito positivo, o entendimento e a abertura à crítica que detectou na equipa portuguesa, apesar da heterogeneidade da sua composição, quer do ponto de vista etário quer socioprofissional. Destacou, ainda, o elevado grau de aceitabilidade manifestado pelos jornalistas “entrevistáveis”. Afirmou o seu interesse em seguir de perto a investigação até à respectiva conclusão.

Sobre as conclusões do estudo realizado em França:

  • As referências profissionais surgem, para a maioria dos jornalistas entrevistados, no decurso da própria actividade, pelo que recusam a existência de um “modelo” prévio de jornalista.
  • De entre os privilégios associados ao exercício da profissão destacam a autonomia, o enriquecimento pessoal, as viagens, o sentimento de serem testemunha de acontecimentos importantes.
  • Assinalam como principais dificuldades a conciliação dos horários profissional e pessoal; o nível baixo de salários; a disparidade das remunerações, sobretudo quando comparadas com as auferidas por “vedetas”.
  • Associam o futuro a algo “longínquo” que não justifica, portanto, apreensões especiais.
  • Manifestam pouco sensibilidade no que se refere à relação homem/mulher no âmbito da actividade profissional.
  • Entendem a inovação tecnológica como um “dado adquirido” que, por isso, nem exaltam nem criticam.
  • Alheiam-se de questões ligadas à internacionalização da profissão. Enquadram o jornalismo no contexto do órgão de comunicação social em que trabalham; em seguida no contexto dos órgãos de comunicação social franceses; só depois, e acessoriamente, no contexto europeu.
  • Classificam a profissão como heterogénea, tanto do ponto de vista geográfico (Paris vs província), como internamente ao grupo, nomeadamente por razões associadas à formação (tarimba ou escola). Segundo os jornalistas entrevistados não se pode falar, portanto, de um «jornalismo francês».
  • Exprimem sentimentos de solidariedade apenas em momentos de crise, de ataque ao grupo profissional ou quando em reportagem no estrangeiro .
  • Afirmam a necessidade de ser redefinido o estatuto de jornalista que recusam, por exemplo, a animadores televisivos (segundo muitos dos entrevistados, tais animadores possuem carteira profissional indevidamente).
  • Criticam duramente o exercício de actividades conexas (relações públicas, publicidade, consultoria, etc.), recusando qualquer paralelismo entre jornalismo e comunicação. Exclama, a propósito, um dos entrevistados: “para os jornalistas, a dignidade da profissão; para os profissionais da comunicação, a indignidade da sujeição”.
  • Insurgem-se contra as rotinas que tornariam os jornalistas meros “funcionários”.
  • Lamentam o peso excessivo do audiovisual que levaria à espectacularização do jornalismo.
  • Denunciam a acentuação da concorrência de que resultaria uma ditadura do audímetro, uma ausência de verificação e de cruzamento de informação e uma superficialidade no tratamento dos temas.
  • Acusam sobretudo os jornalistas mais novos, de desrespeito pelas «mais elementares normas deontológicas», de “correrem atrás do scoop”.

Seguiram-se alguns comentários, por parte dos investigadores portugueses, relativamente à evolução do campo dos media e aos contextos socioprofissionais nos dois países:

  • A ruptura política bem como o lançamento dos primeiros cursos universitários em Jornalismo/Comunicação Social é muito mais recente em Portugal do que em França onde as duas últimas grandes rupturas sociopolíticas se situam nos anos quarenta (Segunda Guerra Mundial) e no final dos anos cinquenta (Guerra da Argélia).
  • Embora com forte tendência para baixar, é ainda grande o peso, em Portugal, de jornalistas de “tarimba”, contrariamente ao que sucede em França onde a maioria esmagadora dos profissionais da comunicação social tem formação superior, universitária ou adquirida em instituições de natureza profissionalizante.
  • Por se situarem numa sociedade economicamente mais desenvolvida os jornalistas franceses estarão mais expostos aos efeitos da concorrência do que os seus colegas portugueses.
  • A quase totalidade dos jornais diários portugueses, das estações de rádio com expressão, em termos de audiência e em termos de profissionalismo, está sediada em Lisboa ou no Porto. As delegações regionais de televisão são, em Portugal, incipientes. Em França existem, pelo contrário, importantes metrópoles regionais com condições para sustentar poderosos meios de informação local/regional.
  • Historicamente, o espaço público francês caracteriza-se por uma muito maior dinâmica, por uma muito maior intervenção popular, o que se vai repercutir no consumo de informação.

Ver também, sobre o mesmo assunto e do mesmo autor, Les Mutations du journalisme en France e au Québec.